Lucro recorde R$ 2,3 bilhões permite voltar a distribuir dividendos após suspensão de dez anos

Valor Econômico
17/3/2022

Por Andrea Jubé — De Brasília

Os Correios realizaram um lucro recorde em 2021, resultado que será apresentado nesta quinta-feira na reunião do conselho de administração da empresa. O balanço ao qual o Valor teve acesso com exclusividade revela um lucro líquido de R$ 2,3 bilhões, e um lucro recorrente de R$ 3,7 bilhões.

Esse resultado permitirá que a empresa retome o pagamento dos dividendos, uma ação interrompida há dez anos. O valor projetado para esse acerto é de R$ 251 milhões, mas que ainda depende de aprovação da assembleia geral, convocada para abril.

O presidente dos Correios, Floriano Peixoto, também antecipou, com exclusividade ao Valor, o próximo salto de sua gestão: transformar a empresa de operador logístico em um “marketplace”, lançando até o fim do ano o “Correios Shopping”.

“Vamos mudar o nosso perfil. Somos um dos maiores operadores logísticos do Hemisfério Sul, mas isso já não nos basta. Os Correios vão competir junto às demais empresas do setor porque com a nossa capilaridade, expertise, recursos humanos, materiais e financeiros, podemos galgar, com mais e melhores condições, outras opções para a empresa”, afirmou o general da reserva, que assumiu a presidência da empresa em junho de 2019.

“É a atividade que chamam de fulfillment”, acrescentou. “Os Correios vendem a mercadoria, embalam, entregam, fazem tudo. Já temos um projeto piloto em São Paulo, em Cajamar [próximo a Osasco]. A ideia é expandir para o Brasil. Isso é uma tendência mundial. Nos Estados Unidos você encomenda um produto e pode receber no mesmo dia, ou no dia seguinte”, completou.

Para viabilizar a transformação, a empresa vai inaugurar também neste ano mais dois centros internacionais de operação. Ele preferiu não antecipar onde serão instalados. As atuais unidades em funcionamento operam em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. “Isso é trabalho permanente de adaptação da empresa à realidade do mercado e às necessidades do setor”, argumentou.

O balanço traz o melhor resultado da empresa em 22 anos, e o maior num período de dez anos. A contabilidade registra que no período entre 2010 e 2019, o lucro líquido foi de R$ 873 milhões, enquanto nos últimos dois anos da gestão de Peixoto, o lucro líquido somado totalizou R$ 4 bilhões.

Peixoto atribui esse resultado a um conjunto de medidas estruturantes adotadas para evitar que a empresa se tornasse dependente do Tesouro Nacional. Em 2019, havia um risco de liquidez, envolvendo um passivo de R$ 18 bilhões. “Revisamos valores dos contratos, retiramos benefícios, fizemos um acordo coletivo de trabalho em 2020, estabelecemos medidas de saneamento, firmamos parcerias com a Controladoria Geral da União, agimos com estrita obediência ao Tribunal de Contas da União e às normas de compliance”, enumerou.

Peixoto ressalta, ainda, a mudança de imagem da empresa, que atribui à ausência de interferência política. “Os Correios sumiram das páginas policiais”, registrou, em alusão indireta ao esquema de corrupção denunciado em 2005.

Ele rechaça qualquer tentativa de intervenção, e afirma que o presidente Jair Bolsonaro lhe delegou “total independência” para conduzir a empresa. “Tive plena autoridade para administrar, eu e minha diretoria, todos gestores muito competentes”.

Alguns números do balanço são expressivos: o saldo de caixa foi de R$ 3,6 bilhões. Em 2020, foram R$ 569 milhões. O Ebtida (lucro antes de impostos, jutos, depreciação e amortização) foi R$ 3,1 bilhões. No ano anterior, havia sido R$ 1,5 bilhão. Técnicos da empresa chamam a atenção para a margem do Ebtida que alcançou dois dígitos em 2021, com o percentual de 14,6%. A meta é sustentar o índice em dois dígitos pelos próximos cinco anos.

Também houve uma redução de R$ 9,5 bilhões das despesas com pessoal (PDI/PDV, e o acordo coletivo de trabalho celebrado em 2020 rendeu economia de R$ 800 milhões.

O plano de saúde foi saneado (dívida de R$ 600 milhões em 2019 foi zerada). O Postalis, fundo de previdência, também foi saneado (devia R$ 3,6 bilhões em 2019 e hoje o saldo é de R$ 7,2 bilhões).

A pandemia foi um dos fatores que viabilizaram a expansão da receita de vendas em 23% em relação a 2020. No auge da crise sanitária, os Correios redobraram ações para assegurar qualidade, regularidade e tempestividade às operações. Por exemplo, a digitalização de pequenos vendedores em todo o território nacional. Foram feitos investimentos em tecnologia e automação, o que possibilitou o aumento da capacidade de processamento de carga e permitiu a redução dos prazos de entrega.

O custo do objeto transportado caiu de R$ 4,87 em 2020 para R$ 4,24 em 2021. O prazo médio de entrega do Sedex – que estava em descrédito no começo da pandemia – caiu de 5 dias para somente um dia.

A empresa também expandiu as vendas internacionais, cujo resultado foi de R$ 2,7 bilhões no ano passado. Em 2020, o valor alcançado pelo setor foi de R$ 1,2 bilhões.

As principais plataformas de “marketplace”, inclusive as estrangeiras, são clientes dos Correios, mesmo as que possuem frota própria. Com a expansão das vendas, o setor varejista nacional intensificou a pressão sobre as plataformas estrangeiras, que não sofrem com a alta carga tributária brasileira.

Nesse ponto, a posição dos Correios é de que no caso das encomendas internacionais de importação, a documentação é a “declaração para aduana”, onde constam os dados de remetente, destinatário e conteúdo, conforme exige a legislação em vigor.

Os Correios exigem que seus remetentes apresentem as respectivas notas fiscais e/ou Declarações de Conteúdo afixadas às encomendas. O argumento é de que no momento do desembaraço aduaneiro, os Correios já enviaram todos os dados das encomendas para a Receita Federal e cumpriram as exigências previstas.

Mesmo com a saúde financeira positiva e as metas ousadas para os próximos meses, o processo de privatização da empresa segue em estudo.

Peixoto diz que a privatização é “uma questão muito sensível”, e que os Correios entraram como objeto de estudo.

“A missão que recebemos foi de fortalecer a empresa financeiramente e nós trabalhamos nisso alcançamos esse objetivo, sem preocupação com a privatização, porque isso cabe ao Ministério da Economia e ao BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]”.

Peixoto não citou o nome do colega de caserna que administra outra estatal no governo Bolsonaro, mas mandou um recado velado no contexto da escalada inflacionária que pressiona os brasileiros. O presidente dos Correios observa que, mesmo com todas as dificuldades, com o aumento dos combustíveis, com os insumos de transportes, a empresa não aumentou as tarifas das encomendas por dois anos, “em respeito ao momento em que o país esta vivendo”.

Peixoto afirma que a empresa poderia ter apresentado um resultado ainda maior, mas que sua percepção é de que era preciso entrar no “contexto da realidade nacional, e maneirar os resultados, para compensar esse esforço com benefícios para a população”. Ele diz que a empresa pública “não pode se afastar da realidade social”.