Rio de Janeiro/RJ – O Centro Cultural Correios (CCC) convida o público para conhecer as duas exposições que acabam de estrear e permanecem no espaço até 12 de dezembro: “Pedaços de Nós: Fragmentos de Consciência”, da artista Deborah Netto e “Matriz”, do pintor Marcelo Duprat. O CCC conta com acessibilidade e está localizado na Rua Visconde de Itaboraí, 20, no Centro do Rio. A visitação pode ser feita de terça-feira a sábado, das 12h às 19h. A entrada é livre e gratuita.
Em “Pedaços de Nós: Fragmentos de Consciência”, Deborah Netto apresenta trabalhos que entrelaçam pintura, poesia e matéria em uma reflexão sobre a condição humana. As obras são construídas predominantemente em encáustica, técnica ancestral na qual cera, resina, pigmentos e outros materiais são fundidos pelo calor, formando camadas, transparências, texturas e vestígios. Sem idade, rosto ou identidade definida, as figuras são, ao mesmo tempo, ninguém e cada um de nós .
Na mostra, o esqueleto não anuncia um fim. É antes uma espécie de redução: retirados os excessos, as diferenças e aquilo que nos reveste, resta aquilo que temos em comum. Entre a fragilidade do corpo e a permanência da matéria, as obras nos convidam a reconhecer que talvez seja justamente no que parece mínimo, incompleto ou transitório que a experiência humana encontra sua maior densidade.
Nesse universo, surgem pequenas figuras esqueléticas que, longe de evocarem a morte, revelam a vida reduzida ao essencial. Despojadas daquilo que exteriormente nos distingue, preservam gestos profundamente humanos. Amam, cuidam, esperam, brincam, observam, atravessam e sonham. Pequenas diante de espaços imensos, carregam uma presença que contrasta com sua fragilidade.

Já em “Matriz”, o pintor carioca Marcelo Duprat, professor de Pintura da Escola de Belas Artes da UFRJ, organiza relações, ritmos, tensões e recorrências, mas permanece aberto ao que pode emergir das obras. Durante anos, o artista pintou paisagens. Nelas, a natureza nunca foi apenas aquilo que estava diante dos olhos. Uma mesma vista podia conter várias composições, várias imagens latentes. Foi esta a semente da pesquisa: desenvolver uma pintura que funcione como matriz, capaz de conter outras imagens possíveis.
Ártemis foi a primeira figura dessa passagem. Vinda da natureza e ligada à floresta, trouxe consigo o cortejo das hamadríades, ninfas integradas à paisagem num todo coeso.
A investigação se aprofunda em Os Velados, na qual aparecem seres que não se deixam reconhecer. Em vez de torná-los mais claros, o artista aceita sua condição indefinida. Depois vêm Sobre os Seis, Entre os Cinco e Avanço dos Sete, em que os números deixam de funcionar como simples quantidades e passam a constituir relações. Em Sentinelas, ocorre uma mudança decisiva. As figuras laterais já não são desenhadas claramente. A pintura passa a confiar naquilo que pode ser percebido sem ser inteiramente afirmado.
É nesse percurso que surge Matriz. Em Os Doze na Beira, pontos, marcas e ritmos passam a funcionar como núcleos de onde novos seres podem brotar. Em Krypta, Dryanthe e O Problema dos 3 Corpos, os personagens emergem da tela e, depois, convocam histórias, mitologias e possibilidades narrativas que retornam ao processo pictórico. As imagens dessa exposição mantêm viva a tensão entre representação e abstração.
